Inscrições para o evento – suplência

As inscrições para o I Encontro Vozes Femininas na Filosofia pelo Portal de Extensão da UFRGS já atingiram o número máximo de vagas, indexado pelo número de lugares disponíveis nos auditórios do Campus do Vale.

Ficamos muito contentes com a resposta do público!

Sabemos que às vezes as pessoas se inscrevem mas acabam não podendo comparecer.

Assim, estamos recebendo inscrições para uma lista de suplentes.

Os interessados em fazer parte desta lista devem enviar um e-mail para vozesfemininasnafilosofia@ufrgs.br com seus nomes, CPF, email de contato, telefone, informando se tem interesse no evento completo ou só no minicurso.

 

Programação e resumos

Segunda-feira, 26 de junho

13:30 – Abertura dos trabalhos

14hMesa redonda I – Em torno de Martha Nussbaum

Mediador: Eduardo Vicentini de Medeiros (UNISINOS)

Nussbaum sobre valor intrínseco na República de Platão 

Carolina Araújo (UFRJ)

Este trabalho pretende tratar de um dos argumentos usados por Martha Nussbaum para concluir que a República de Platão é uma obra escrita pelo “mais intolerante dos seres humanos” para defender a “deformação do desejo”. Segundo Nussbaum, a República apresenta dois argumentos sobre a melhor vida humana: (1) que a melhor vida é governada pela razão, defendido no IV livro da obra; (2) que a melhor vida é a vida do filósofo, defendido sobretudo no IX livro. Enquanto a primeira tese poderia garantir a felicidade de vários tipos de vida estruturadas por uma razão prática que buscaria padrões harmônicos de realização de diversos tipos de finalidade – uma abordagem que satisfaria as expectativas de Nussbaum para uma teoria moral –, a segunda defende que apenas um padrão de vida, dedicado ao conhecimento teorético, é melhor. É por defender a segunda tese que a República é condenada por Nussbaum. Para examinar essa acusação, pretendo centrar minha exposição na classificação dos prazeres do livro IX, tendo como premissa a comensurabilidade dos desejos exposta no livro VI, a notória “metáfora hidráulica”. Isso me permitirá trabalhar, na República, com a tese de uma mensuração do prazer que a própria Nussbaum admite ser adotada ex officio por Sócrates no Protágoras. Este detalhe é relevante ao meu ponto porque garante a integridade da alma e a interação entre suas “partes” no momento de escolha. Tendo isso em mente, passo a analisar os três argumentos sobre a superioridade da vida do filósofo. Em relação ao primeiro, defendo que o que está em questão é apenas o governo da razão. Quanto ao segundo, argumentarei que o que Platão entende como “prazeres necessários” não os elimina como prazeres, apenas aponta para como razão é capaz de agregar prazer a essas ações, à medida que garante o agente como senhor da ação, i.e., impedindo que o valor extrínseco se sobreponha ao intrínseco. O filósofo aparece aqui como um aquele que é capaz de experimentar essa ampliação do prazer e por isso um bom juiz. Apenas o terceiro argumento fala da superioridade do prazer exclusivo ao filósofo. No entanto, pretendo defender que a atividade filosófica aí descrita é requisito para a ampliação do prazer descrito no segundo argumento. A diferença, portanto, entre uma vida governada pela razão e uma vida filosófica seria numericamente mensurável em termos do tempo dedicado ao exercício intelectual. Se minha análise estiver correta, ao defender que a República entende pureza, estabilidade e verdade como marcas de valor intrínseco que classificam objetos e atividades da vida, Nussbaum negligencia o caráter comensurável do desejo postulado tanto na República quanto no Protágoras. Se o governo da razão é comum a vários tipos de vida, a vida filosófica é apenas uma vida com prazer de maior intensidade e duração, não se opondo àquelas que se dedicam a “ocupações relativas à necessidade”. Isso talvez não baste para defender Platão da intolerância, mas pode ser o início de uma conversa.

Martha Nussbaum: a literatura e o conhecimento do amor 

Janyne Satler (UFSC)

Love´s Knowledge é o mais importante livro de Martha Nussbaum dedicado à relação – nem sempre pacífica – entre a filosofia e a literatura. É um título imensamente sugestivo a respeito de sua posição quanto ao papel da literatura em nossa vida moral, em nossa vivência e experiência moral, e até mesmo em nossas incursões éticas a nível teórico: o amor (tema muitas vezes negligenciado pela filosofia moral “tradicional”) se nos dá a conhecer como engajamento e como vulnerabilidade, como companhia e como abertura ao risco, exatamente como se nos dá a conhecer o nosso relacionamento para com a literatura. Não se trata, portanto, de um conhecimento privilegiadamente filosófico. A não ser que em nossas pretensões teóricas pudéssemos estar sempre dispostos a uma queda, como quando caímos de amores – algo que Nussbaum pareceria endossar contra o sufocante academicismo de nossa filosofia contemporânea. Sua proposta, neste sentido, é a tomada da literatura como o lugar por excelência para o conhecimento do amor, de cujo aprendizado deveria servir-se humildemente toda e qualquer tarefa de compreensão moral ou de consideração ética. É sobre esta proposta que pretendo esboçar uma breve reflexão.

15:45 – Palestra I  

Cristina de Pisan contra os filósofos

Ana Rieger Schmidt (UFRGS)

Nossa comunicação tem como objetivo geral apreciar o escopo filosófico da obra da poetisa medieval Cristina de Pisan (1364- c.1430), mais especificamente a sua crítica à tese da imperfectibilidade da natureza feminina, muito disseminada nos meios acadêmicos e intelectuais de seu tempo. Nos concentraremos, para tanto, sobre sua obra mais conhecida: La Cité des Dames, narrativa alegórica publicada em Paris em 1405. Além disso, propomos uma reflexão sobre a posição social e escolaridade de Pisan e sua relevância para uma discussão ainda mais geral, a saber, a necessidade de considerar o contexto laico medieval para uma compreensão plena do cenário filosófico dessa época, aspecto severamente negligenciado pela maior parte dos historiadores da filosofia medieval.

17h – Palestra II

Sobre Madame (Émilie) du Chatelêt 

Kathrin Rosenfield (UFRGS)

O pequeno tratado dessa grande dama do início do século 18 deveria encontrar seu lugar, sempre!, ao lado dos Ensaios de Montaigne… Não porque se comparasse em extensão com a visão desse grande pensador, nem por rivalizar em profundidade com sua sabedoria. Mas pela simples razão de nos oferecer uma sabedoria de outro tipo, uma sabedoria que emerge de uma experiência de vida que talvez seja muito próxima dos desafios dos homens e das mulheres do século XXI. Muito mais próximo, em todo caso, do que pensamos à primeira vista. Pois o desafio de Mme. Du Châtelet é o da emancipação em todos os níveis – social, econômica e de gênero. Nisso, ela é nossa irmã e talvez o nosso modelo. Ela enfrenta, como a maioria de nós hoje, o nó górdio de uma sociabilidade que entrelaça de modo ardiloso possibilidades e impossibilidades, capacidade e incapacidade, potência e impotência.

18:30 – Minicurso – Aula I 

Um desafio à formação filosófica: reaprender a ver e ouvir o mundo com mulheres

Ana Miriam Wuensch (UnB)

Ementa do minicurso: “Reaprender a ver e a ouvir o mundo com mulheres na filosofia” sugere uma retomada crítica de alguns elementos da tradição filosófica pela qual nos formamos. Partimos de uma simples pergunta: existem filósofas? De Safo de Lesbos, elogiada por Platão no Fedro, ou mesmo Diotima de Mantineia, no Banquete, até Hannah Arendt, há uma genealogia do pensamento feminino por fazer, desde a Europa e até nós – e mais além.

No caso de haver evidências biográficas de filósofas, e registros de obras femininas, a pergunta pela existência de mulheres na filosofia torna-se, então, uma questão um pouco mais complexa – e localizada. Em que medida a perspectiva das filósofas tem sido considerada na formação, histórica, e temática, dos currículos universitários e escolares brasileiros? Podemos considerar a questão por meio das ementas das disciplinas dos cursos de filosofia, de documentos oficiais relativos ao ensino de filosofia, e pelas questões de provas como o ENADE, que rastreiam um repertório comum de ensino, pesquisa, extensão, e avaliações e nos processos seletivos para a academia.

Não se trata do fato evidente de que há tempos existem professoras e pesquisadoras formadas em filosofia atuando nas mais diversas áreas de investigação acadêmica no Brasil, conforme os dados estatísticos do CNPq e da CAPES a que se pode recorrer, e mesmo eventuais questões subsidiadas em obras de filósofas, nacionais e outras, em exames seletivos como o ENEM. No campo de investigação filosófica que pode ser aberto com a pergunta inaugural – existem filósofas? – e as questões que podemos formular a partir daí, o minicurso que propomos se concentra em alguns aspectos mais gerais de um problema filosófico ainda desalojado, e nômade, a saber: o silêncio da transmissão da filosofia acerca das pensadoras. Coisa de que vem ocupando em parte o feminismo acadêmico há pelo menos quatro décadas.

Propomos tratar, no limite de três dias, três aspectos relevantes para a natureza do evento que nos reúne na UFRGS. Uma primeira consideração é sobre as “metáforas-guia” da filosofia: a visão e a audição, seguida por uma apresentação de perspectivas mais gerais de pesquisa sobre o gênero em filosofia, e sobre a obra, oral e escrita, de filósofas.  O segundo dia destaca o pensamento de autoras singulares em suas considerações sobre o Brasil, ou desde a América Latina, nos séculos XIX e XX, a saber: Flora Tristán, Maria Firmina dos Reis, Nísia Floresta e Rose Marie Muraro; e também questiona o modo como os relatos dos mitos de autoria coletiva relativos à condição feminina são tratados em nosso contexto, como é o caso das Icamiabas e do amuleto muiraquitã.  A terceira consideração busca promover uma reflexão sobre o efeito de nossa formação sobre as obras de referência em filosofia, em geral, e o livro didático de filosofia destinado ao Ensino Médio brasileiro. Cumpre-se assim o ciclo de uma formação que pode compreender o mundo com mulheres ou sem mulheres; e as mulheres como pessoas e agentes num mundo comum, em condição de pluralidade e equidade.

Para a dinâmica do curso, utilizaremos como recurso a exposição dos temas, seguidos por um debate a cada dia, acrescidos de uma ficha de atividades a ser entregue na finalização do curso. A referência bibliográfica utilizada será fornecida no fechamento do curso.

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Terça-feira, 27 de junho

13:30 – Mesa redonda II – Em torno de duas filósofas modernas

Mediadora: Lia Levy (UFRGS)

 Elisabeth Simmern van Pallandt: o problema normativo racionalista

Katarina Peixoto (CNPq/UERJ)

Entre 1643 e 1647, Elisabeth van Pallandt, também conhecida como “A Grega”, apresentou duas questões a Descartes, derivadas do projeto filosófico expresso em seu método. Essas duas questões, pretendo deixar claro, habitam o núcleo programático do legado racionalista, na moralidade, a saber: 1) como, dada a inversão epistemológica, a mente humana, tomada como substância, deve domar as paixões e 2) por que e como domar as paixões é requerido para a moralidade, dado o reposicionamento, defendido por Descartes, da noção de Soberano Bem (Carta de 01 de setembro de 1645)? Pretendo deixar claro que as duas dúvidas estão intimamente vinculadas, e que a questão 2 constitui uma dificuldade maior, para o projeto cartesiano, que persevera e reaparece na filosofia prática de Spinoza. Trata-se de esclarecer por que e como o deslocamento de uma noção-fim, para uma noção-meio, defendido por Descartes em setembro de 1645, quanto ao Soberano Bem, não desemboca num relativismo moral. O ponto de partida é a carta de Elisabeth de 6 de maio de 1643, até a formulação de sua dúvida, em setembro de 1645, para Descartes. Embora haja na literatura quem defenda que Descartes jamais respondeu satisfatoriamente a Elisabeth, quanto a essas questões, minha comunicação está concentrada em apresentar o sentido e o alcance dessas questões, no projeto racionalista de refundação do conhecimento e da ciência, no Século XVII. E em explicitar a fecundidade da formulação dessas questões, por essa interlocutora arguta de Descartes. Mais do que uma filósofa das paixões e consternada com os problemas da repressão à sensibilidade (no rastro de um estoicismo moral cartesiano), como parte da literatura a toma, Elisabeth foi uma filósofa moral, consternada, portanto, com a dificuldade, implicada pela emergência da subjetividade moderna, da objetividade da moral. Com força, a explicitação dessa objetividade dará a ver que a atribuição, tanto a Descartes, como a Elisabeth, de representantes de um estoicismo moral não faz sentido.

O conceito de natureza em Anne Conway 

Nastassja Saramago Pugliese (UGA/USP)

A metafísica de Anne Conway é estruturada, em seu Principia Philosophiae, segundo um realismo moral de inspiração neoplatônica. Deste modo, a totalidade do que existe é dividida em três grupos distintos: as espécies inferiores, as espécies mediadoras e as espécies superiores. Tal divisão tripartite do ser no interior da natureza se segue da definição de substância que é, por sua vez, única e, ao mesmo tempo, mutável segundo uma hierarquia de perfeição. Neste trabalho apresentarei a crítica de Conway a Espinosa, mostrando como o seu argumento da transmutação é uma alternativa – ainda que contra-intuitiva – às dificuldades de identidade dos modos finitos. O argumento da transmutação de Conway leva às últimas consequências a definição de Espinosa de que os indivíduos são modificações da substância única. Tal movimento pode ser caracterizado como uma redução ao absurdo do argumento de Espinosa, mas Conway considera os efeitos desta reductio verdadeiros e os toma como única explicação possível tanto do movimento da matéria quanto da possibilidade de mudança e identidade de indivíduos na natureza. Examinarei como o argumento da transmutação de Conway ilumina seu conceito de substância, ocupando um lugar único nas ontologias do século XVII e antecipando, por fim, a noção leibniziana de mônada.

15h – Palestra III

Margareth Gilbert e o comprometimento mútuo 

Daniel Simão Nascimento

Margareth Gilbert é uma filósofa inglesa nascida em 1942 e que é conhecida hoje em dia sobretudo por aqueles que se dedicam à chamada ‘filosofia das ciências sociais’. Gilbert tem sido uma filósofa bastante ativa desde a década de 80, publicando dezenas de artigos em revistas especializadas e seis livros, dentre os quais merecem destaque On social Facts (1989), A theory of political obligation: membership, commitment and the bonds of society (2008) e Joint Commitment: How we make the social world (2014). Nesta palestra, apresentarei a teoria do comprometimento delineada por Gilbert ao longo dos anos, começando pelo artigo seminal de 1990 intitulado “Walking Together: A Paradigmatic Social Phenomenon” e terminando nas formulações mais maduras que nos são oferecidas primeiro em A theory of political obligation (2008) e depois em Joint Commitment (2014).Como veremos, através de sua teoria do comprometimento mútuo, a autora nos fornece uma resposta original para problemas que são até hoje matéria de discussão entre os filósofos. Dentre eles, podemos citar a produção de obrigações em geral, e de obrigações políticas em particular, entre os homens, a existência de intenções e crenças que pertençam aos grupos mas não aos sujeitos, e a possibilidade de que se responsabilize um grupo inteiro pelas ações de alguns de seus membros.  Por tudo isso, a teoria do comprometimento mútuo desenvolvida por Gilbert deve interessar não somente aqueles se dedicam à chamada ‘filosofia das ciências sociais’, mas também todos aqueles que se dedicam ao estudado da ética e da filosofia política.

16: 15 – Painel Filósofas na Pesquisa (com a participação de convidadas de outras áreas e instituições.)

18:30 – Minicurso Um desafio à formação filosófica: reaprender a ver e ouvir o mundo com mulheres – Aula II – Ana Miriam Wuensch (UnB)

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Quarta-feira, 28 de junho

13:30 – Mesa redonda III – Em torno de filósofas contemporâneas

Mediadora: Sílvia Altmann (UFRGS)

Unidade dos escritos de Béatrice Longuenesse 

Marília Espírito Santo

Filósofa francesa radicada nos Estados Unidos, Béatrice Longuenesse publicou recentemente o livro I, Me, Mine: Back to Kant, and Back Again (2017), em que aprofunda sua pesquisa sobre o idealismo alemão e a estende à filosofia analítica contemporânea. A partir de análises que vão de Wittgenstein a Descartes, concentradas sobretudo em Kant, Longuenesse procura inserir-se na discussão atual sobre os usos do pronome “eu” e os sentidos da autoconsciência na proposição “eu penso”. Seu projeto é o de naturalização do transcendentalismo, conduzido por meandros da psicologia e da neurociência. Essa nova abordagem é surpreendente para os leitores que têm acompanhado a obra de Longuenesse desde seu livro inicial, Kant et le pouvoir de juger (1993). Aí ela se orientava pela lógica e pela ontologia para sustentar, contra séculos de desconfiança sobre a dedução metafísica, um argumento original sobre a passagem das formas lógicas do juízo à tábua das categorias na Crítica da razão pura, mostrando em que sentido a tábua dos juízos consiste no fundamento das três Críticas. Nada mais justo que se perguntar, então, por que meios sua pesquisa foi levada, em seu livro mais recente, a questões tratadas por Freud e a discussões com autores como Elizabeth Anscombe, Gareth Evans ou Sydney Schoemaker. A fim de reconstituir a unidade dos escritos de Longuenesse, trata-se de explorar os caminhos que a levaram ao problema da autoconsciência, indicados por ela no prólogo de Kant e o poder de julgar, tradução brasileira a ser publicada em 2017.

Hannah Ginsborg e a noção de “normatividade primitiva”: como chegamos a conceitos em Kant? – 

Mitieli Seixas (UNIFRA)

A noção de juízo na Crítica da razão pura é alvo constante de controvérsias. Isso porque, Kant parece atribuir a essa concepção ora uma compreensão “frouxa”, em que julgar corresponde simplesmente ao ato de relacionar conceitos, ora uma compreensão “estrita”, onde julgar é relacionar o pensamento ao objeto e, portanto, onde exercer o juízo é fazer uma asserção sobre o mundo. Por outro lado, na Crítica da faculdade de julgar, Kant descreve o juízo como a capacidade de “pensar o particular como contido sob o universal” (CJ, Introdução, IV, 5:179). Hannah Ginsborg vê nesta última compreensão um sentido mais fundamental para o ato de julgar do que aquele afirmado por Kant em sua Crítica da razão pura: pensar o particular como contido sob o universal seria um tipo “mais básico” de juízo visto ser o modo como chegamos – em primeiro lugar – a conceitos dos objetos para os quais o pensamento deve fazer referência. Dessa maneira, segundo Ginsborg, como qualquer exercício do pensamento exige a posse de conceitos como verde, isósceles, maçã, para dar conta de uma teoria da cognição, é necessário explicar como partindo de coisas particulares chegamos a pensá-las sob conceitos universais. Para avançar em uma compreensão do modo como chegamos a conceitos pelo exercício do juízo, a autora mobilizará a noção de “normatividade primitiva”. Explicar essa noção e seu papel na teoria kantiana do juízo é o objetivo desse trabalho.

15h – Palestra IV 

A filosofia política de Nancy Fraser: entre crítica feminista e análise do capitalismo Felipe Gonçalves Silva (UFRGS)

Nancy Fraser destaca-se como uma das autoras mais centrais do debate filosófico-político atual. Ao longo de sua obra, encontramos um comprometimento constante com a tematização das injustiças de gênero negligenciadas por algumas das mais influentes teorias da justiça contemporâneas, além do cuidado em rearticular sua agenda teórica em atenção às novas questões políticas que acompanham as transformações históricas do capitalismo. Partindo da obra Fortunes of Feminism (2013), coletânea que reúne ensaios publicados ao longo dos mais de 25 anos de sua vasta produção intelectual, a comunicação propõe analisar a articulação interna entre esses dois eixos temáticos, colocando em relevo diferentes modos como a autora procura combinar filosoficamente crítica feminista e diagnósticos políticos do capitalismo.

16: 15 – Palestra V

Potenciais e limites das alianças feministas com Foucault

Yara Frateschi (Unicamp)

Em Politics of ourselves (2008), Amy Allen se propõe a colocar em diálogo Foucault e Habermas, assim como Butler e Benhabib, com a intenção de esclarecer e realizar em bons termos aqueles que são, segundo ela, os dois objetivos principais da Teoria Crítica: 1) “oferecer um diagnóstico embasado empiricamente das crises centrais e das injustiças do tempo presente”; 2) “traçar os caminhos da progressiva transformação social” (Politics of our selves, p. 173). De acordo com Allen, “a realização do primeiro objetivo requer o desenvolvimento de uma explicação do poder em toda a sua profundidade e complexidade, incluindo a maneira pela qual o poder opera através de mecanismos de sujeição que constituem modos subordinantes de subjetividade e identidade” (idem, ibidem). Alcançar o segundo propósito requer, por sua vez, o desenvolvimento de uma explicação da autonomia, “entendida tanto como capacidade de reflexão crítica sobre as relações de poder que nos constituem quanto como capacidade para a autotransformação” (Idem, p. 172). Baseada em uma leitura particular de Foucault, Allen defende a tese de que sujeição e autonomia são os dois lados da politics of our selves. Embora foucaultianos e habermasianos tenham a tendência de exaltar um aspecto em detrimento do outro, ela propõe uma abordagem que teoriza a sujeição sem sacrificar a possibilidade da autonomia e que teoriza a autonomia sem negar a realidade da sujeição (Idem, p.173). Neste texto eu pretendo mostrar que a assimilação da tese foucaultiana segundo a qual “there is no outside to power”, bem como a análise da sujeição embasada em Foucault e em Butler, coloca sérias dificuldades para Allen no momento em que ela se propõe a refletir sobre as condições da transformação social, sobretudo no que diz respeito à sujeição de gênero, que é o tema central do livro de 2008. A transformação social é um objetivo anunciado, mas precariamente alcançado por Allen. A sua análise da questão de gênero é excessivamente centrada no indivíduo e na internalização de normas subordinantes. Isso a leva a uma avaliação precária e insuficiente tanto das causas da dominação da mulher quanto dos potenciais emancipatórios inscritos no presente. Em consequência, quando muito Allen alcança uma reflexão sobre a autotransformação (que ela identifica com autonomia), sem esclarecer como e em quais termos ela se vincula e depende da transformação social. Isso se deve, como procurarei mostrar, à atenção quase que exclusiva ao modo pelo qual o poder constitui formas de identidade compelindo os sujeitos à assimilação de normas que os subordinam. Com isso, perde-se de vista as múltiplas e imbricadas causas da dominação de gênero, como se a sua causa principal fosse a assimilação de normas e padrões de vida subordinantes. Perde-se de vista também que a emancipação requer mais do que autotransformação e autonomia, entendida como capacidade para refletir sobre as relações de poder e como capacidade de transformar o próprio desejo. Em outras palavras, a assimilação da análise foucaultiana da sujeição, nos termos em que Allen a realiza, prejudica tanto a sua proposta de (1) de oferecer um diagnóstico das crises e injustiças do tempo presente, quanto de (2) projetar caminhos para a transformação social.

18:30 – Minicurso Um desafio à formação filosófica: reaprender a ver e ouvir o mundo com mulheres – Aula III – Ana Miriam Wuensch (UnB)

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Um desafio à formação filosófica: reaprender a ver e ouvir o mundo com mulheres

Uma das convidadas desta primeira edição de nosso encontro é a professora Ana Miriam Wuensch, do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB).

Ana Miriam – que tem uma excelente experiência docente em torno da questão “Feminismo e Filosofia” – ministrará, nas três noites do evento, um minicurso intitulado Um desafio à formação filosófica: reaprender a ver e ouvir o mundo com mulheres.

Os tópicos no minicurso são os seguintes:

Aula I (26/06)

Das historiografias feministas da filosofia às temáticas filosóficas na perspectiva das mulheres: o círculo da formação e das obras de referência.

A relação entre os contextos epistemológicos do norte e do sul.

Pensadoras na filosofia e pensadoras da condição das mulheres.

Aula II (27/06)

Casos emblemáticos para nós: Flora Tristán, Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis.

A lenda das Icamiabas e as cosmovisões de gênero nas culturas anteriores à colonização.

Aula III (28/06)

Entre a educação escolar e a formação universitária: livros didáticos, processos seletivos, projetos de extensão, formação continuada de professores.

Perspectivas inter/multi/transdiciplinares das pensadoras e das questões de gênero.

OBS.: O material e a bibliografia serão apresentados no curso.

Além do minicurso, Ana Miriam também participará do evento como comentadora da palestra da colega Ana Rieger Schmidt (UFRGS), Cristina de Pisan contra os filósofos.

Neste link você pode assistir a uma entrevista de Ana Miriam, concedida ao colega Pedro Gontijo num programa da UnBTV, sobre o tema “As filósofas e a filosofia”.

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Programação preliminar

Segunda-feira, 26 de junho

13:30 – Abertura do evento

14h – Mesa redonda I – Em torno de Martha Nussbaum

Nussbaum sobre valor intrínseco na República de Platão – Carolina Araújo (UFRJ)

Martha Nussbaum: a literatura e o conhecimento do amor – Janyne Satler (UFSC)

15:45Cristina de Pisan contra os filósofos – Ana Rieger Schmidt (UFRGS)

17hSobre Madame (Émilie) du Chatelêt – Kathrin Rosenfield (UFRGS)

19h – Minicurso Um desafio à formação filosófica: reaprender a ver e ouvir o mundo com mulheres – Aula I – Ana Miriam Wuensch (UnB)

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Terça-feira, 27 de junho

13:30 – Mesa redonda II – Em torno de duas filósofas modernas

 Elisabeth Simmern van Pallandt: o problema normativo racionalista – Katarina Peixoto (CNPq/UERJ)

O conceito de natureza em Anne Conway – Nastassja Saramago Pugliese (UGA/USA)

15hMargareth Gilbert e o comprometimento mútuo – Daniel Simão Nascimento

16: 15 – Painel Filósofas na Pesquisa (em construção)

18:30 – Minicurso Um desafio à formação filosófica: reaprender a ver e ouvir o mundo com mulheres – Aula II – Ana Miriam Wuensch (UnB)

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Quarta-feira, 28 de junho

13:30 – Mesa redonda III – Em torno de filósofas contemporâneas

Unidade dos escritos de Béatrice Longuenesse – Marília Espírito Santo

Hannah Ginsborg e a noção de “normatividade primitiva”: como chegamos a conceitos em Kant? – Mitieli Seixas (UNIFRA)

15hA filosofia política de Nancy Fraser: entre crítica feminista e análise do capitalismo – Felipe Gonçalves Silva (UFRGS)

16: 15Potenciais e Limites das alianças feministas com Foucault – Yara Frateschi (Unicamp)

18:30 – Minicurso Um desafio à formação filosófica: reaprender a ver e ouvir o mundo com mulheres – Aula III – Ana Miriam Wuensch (UnB)

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